esta mulher que o sistema literário não abarcou

o literário, o poético.
embora essa não seja uma questão
propriamente
de segurança nacional
muitas vezes em muitos tempos
foi objeto de insegurança
ao modo de um controle althusseriano
de instituições e aparelhos coercitivos
e muito certamente hoje
a poesia é ainda uma ordem subversiva
ao dizer comunidade, subjetividades
ao dizer também ideologia
a poesia segue sendo um objeto
de alguma maneira demarcável
sujeita ao social
sujeita aos conflitos de classe
a privilégios que não são
ou muito dificilmente reconhecidos –
há privilegiados que tateiam
fazer algo consistente
ter uma atitude de quebra e suspeição
daquilo que os estabelece no mundo
como entes menos vulneráveis –
é difícil se olhar no espelho
e não se sentir acusado
separar o seu corpo, suas emoções
seu mundo interno
e transferir um pouco dessa dor
da incompreensão
para o macrossistema de aniquilação dos seres e das ideias
há uma lógica sistêmica
que confere credibilidade a poucos
voz a poucos
e que sempre faz das pessoas, eleitos
e que pesca, aqui e ali, formas de manter
uma hegemonia intacta
é difícil fazer algo consistente
querendo manter ao redor a própria consistência
das dimensões que o integram e que permitem
que você viaje mais que os outros
more em um lugar melhor
sofra menos com a violência
seja menos achacado pelos lobos
possa até uivar pra lua
e quem sabe reinar algum tempo
sobre o tempo
mantendo a pata dianteira estendida
sobre outra pele que o faz arder
a poesia, o literário.
falar de coisas tão ermas
num cenário como o nosso
em nossa atualidade de beira de abismo
de coisas, ainda assim, perigosas, candentes
tudo que se disser será um recorte
e poderá sangrar ao rente
ou assaz profundamente
assaz, palavra erma
mas sigo
pensando que ou faço uma mea-culpa
também muito escusável
e me incluo, mulher branca
um metro e setenta e três de altura
história de abuso sexual
de doença mental
de sexualidade fluida
de algum modo percorrida
por mecanismos de segregação
mas que não morreu com oitenta tiros
não foi chutada, morta
tampouco foi queimada viva
dentro de uma escola
não foi escolhida pelos drones
então, esta mulher que escreve
a maior parte das vezes
palavras como fogo e silêncio
ave, árvore, passagem, terra
ruínas
esta mulher que o sistema literário
não abarcou
mas que escreve e publica
e que ainda assim percebe
que talvez se faça ouvir com mais facilidade
que alguns
por mais que lentamente se erga
e entenda o seu papel no descortinamento
da própria saúde
e que pareça não fazer muita questão de nada
que viva a sua vida muito silenciosamente
esta mulher se diz: poeta
ela fala aos quatro cantos
uma língua de calos, matizes e desastres
ela dança em horas estranhas
ela segue acorrentada às palavras
sendo liberta por matérias fissuradas
esta mulher que não ganha dinheiro com literatura
não aceita convites, alvitres
talvez até devesse sair da concha
talvez ela seja uma moça com um brinco de pérola
obaluaê, orixá das doenças e dos espíritos
sobre quem iansã jogou uma ventania
e a descobriu completamente
dizem, verteu luz e não cicatrizes
vejamos, de muitas formas somos filhas de deusas
é preciso merecê-las
deixar que cantem
cunhar a derrota do mundo
de um mundo esquálido pelo dinheiro
de um mundo ridiculamente tecnológico
supremacista e imputado ao prestígio
pelo privilégio dos brancos –
este poema não saberá o fim
do literário, do poético
e não conseguirá levar a cabo o tema
que o iniciou:
é preciso ouvir a matriz do mundo
é preciso ouvir a raiz do mundo

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Ainda ancora o infinito (Moinhos, 2019)

Meu segundo livro de poemas está à venda. Quem se interessar, pode comprar diretamente comigo, sem custo de frete (R$38,00 – entrar em contato pelo e-mail: robertatostes@gmail.com), ou no site da Editora Moinhos. Ele também pode ser encomendado no site da Livraria da Travessa e está disponível em ebook, pelo Kobo e na Amazon.

Abaixo, alguns poemas, capa e epígrafes. 

Anima II – Poesia Feminina

Na plataforma Issuu, o volume 2 da antologia Anima, de poesia feminina, feita artesanalmente e organizada pela Daniela Pace. O volume conta com poemas de Mila Mendes, Denise Quintal, Anna Miranda, Karin Krogh, Ana Farrah Baunilha e Roberta Tostes Daniel. Os dois volumes da antologia podem ser encontrados na biblioteca da Escola de Belas Artes da UFMG.

(texto editado – original publicado pela poeta Amanda Vital, no facebook)

 

Sob a pele da língua | Breviário Poético Brasileiro

Há pessoas incansáveis, e é através delas que a Literatura se expande. Feliz em integrar esta enorme empreitada.

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“Sob a pele da língua | Breviário Poético Brasileiro (Fortaleza/São Paulo: Editora Cintra/ARC Edições, coleção “O amor pelas palavras”) é uma antologia de jovens poetas brasileiros, uma polifonia de vozes que percorrem parte expressiva do país e uma variação de idade dos 40 aos 20 anos. O livro foi organizado por Floriano Martins, significativa partitura de estilos que, juntos, espelham, naturalmente que sem esgotar o tema, a relevância de uma nova perspectiva da lírica no Brasil. Para ampliar o espectro de sua difusão foi criado o grupo homônimo, que permitirá aos poetas conversarem entre si, e ao leitor que tenha acesso a mais detalhes da poética de cada um.
O livro, de circulação exclusiva pela Amazon, terá seu lançamento internacional em abril, quando então informaremos o acesso para aquisição.
Abraxas” – Palavras do organizador.

https://www.facebook.com/groups/314276442615984/

Alfarrábios

Paulo de Carvalho, realizador da Fanzine Alfarrábios, lança dia 31 a edição nº XII, Garota da Capa, que já homenageou escritoras como a Márcia Barbieri. Uma honra estar nesta edição com os demais poetas.

* Retificação: O blog sedemfrenteaomar foi desativado recentemente. Talvez, em outro momento, retorne. Sigo com este robertatostes, que reúne informação sobre publicações. Posso, porventura, vir a escrever poemas aqui também. O título “ficou o mar” dialoga com o espaço anterior e foi retirado de um conto da Lygia Fagundes Telles (“Boa Noite, Maria”, in: “A noite escura e mais eu”). O nome do blog anterior foi também aproveitado para o instagram (@sedeemfrenteaomar – assim, com um e a mais) que abri para divulgar os livros e poesia em geral. 🙂